Augusto Lima
palavra do especialista
TRADIÇÃO E HISTÓRIA NO RITUAL MILENAR DO MATRIMÔNIO.

Quem entra primeiro na igreja, o noivo, os padrinhos ou os pais dos noivos? A noiva entra à direita ou à esquerda do pai? Qual a origem da cor branca para o vestido da noiva? E o véu e a grinalda? Qual o significado da palavra “matrimônio”?

Primeiro, quero deixar bem claro que não existe nenhuma Lei ou Decreto que obrigue a que o assessor de eventos “imponha” uma determina posição aos principais atores de um ato matrimonioso. A mesma coisa não acontece no cerimonial público, castrense, universitário, empresarial e corporativo onde os atos são pautados pelo Decreto 70.274, que trata das Normas de Cerimonial Público e Ordem Geral de Precedência, e o Decreto 5.700, que rege os SÍmbolos Nacionais. Assim, no cerimonial social, para àqueles que assessoram noivos, têm como principal argumento a tradição milenar do ritual, além, é claro, de muito bom senso. 

Sobre isso, como gosto muito de história e principalmente de mitologia com destaque para a grega e romana, compartilho que vocês que prestigiam meus artigos, um estudo que fiz sobre os antecedentes do ritual de matrimônio, incluindo o significado desta palavra.

A concepção romana do casamento era de uma originalidade absoluta. Considerava-se o matrimonium (ou nuptiae) um estado de direito, criado por ato privado. 

Nascido da vontade dos esposos, produzia efeitos jurídicos específicos. Ato privado, o casamento romano era formado sem a intervenção de uma autoridade pública, diferentemente de todas as legislações posteriores. Estabelecia-se um pacto pré-nupcial. Mesmo que a ruptura do compromisso (reforçado por pena, imposta pelos pais) pudesse gerar responsabilidade contratual, o noivado não era obrigatório: o casamento devia ser livre.

Como se fosse um contrato – o que não era -, o casamento nascia da conjunção de duas vontades. Apesar de não serem uma condição para que o casamento ocorresse, os ritos nupciais faziam parte dos costumes (véu da esposa, cortejo, pagens e damas, sacrifícios) e ajudavam a marcar o início da aliança. A única diferença entre o casamento e outras formas de união (concubinato, união livre) estava na análise da vontade dos cônjuges. Essa vontade era identificada como a de contratar uma união estável, de associar a esposa à dignidade do marido e de seu meio, de dar a ela o posto de mãe de filhos lefítimos.

O casamento era, ainda, definido como uma união para gerar crianças: uma alusão não a fecundidade esperada, mas à legitimidade das crianças que iriam nascer, e que só o casamento podia fazer. 

O casamento dependia de algumas condições relativas aos dois esposos: idade (de 12 a 14 anos), capacidade jurídica (que os escravos não tinham), estatuto cívico (não era possível se casar com alguém que vinha de outra cidade), não consanguinidade (tabu do incesto). Por seus efeitos, o casamento era a fonte exclusiva da família legítima.

E qual a origem da palavra MATRIMÔNIO? Essa palavra, que designava o casamento em Roma, significa literalmente “condição legal de mater” (aquela a quem é socialmente atribuído o papel de mãe; mãe social, segundo o dicionário Aurélio), indicando que esse ato representava uma mudança na condição de mulher. Ela não era agente: o homem é que se casava com ela. O homem desposava a mulher.

As cerimônias de casamento realizavam-se sob a proteção da deusa Juno Pronuba (ela era protetora das mulheres casadas – o mês de junho era dedicado a ela como favorável aos casamentos). A noiva usava penteado e roupas particulares: o cabelo era dividido em seis tranças, como o das vestais (sacerdotisa Vesta, deusa do fogo, dos romanos), com uso de uma lança; a cabeça, coberta por um véu de cor alaranjada e uma coroa de flores. A noiva vestia túnica branca, amarrada por um cinto, símbolo da virgindade – retirado mais tarde, no fim da cerimônia – e calçados amarelos em tons alaranjados.

A cerimônia começava na casa do pai da noiva, onde se reuniam convidados, parentes e amigos. As mãos direitas dos noivos eram unidas por uma mulher casada, e se realizava um sacrifício sobre o altar doméstico. Depois, o noivo oferecia um banquete aos convidados. Em seguida, a noiva era “arrancada” de sua mãe com “violência”, simulando-se um sequestro, e acompanhada até a casa do marido por um cortejo de meninas e jovens carregando tochas. 

Tocadores de flautas uniam-se ao cortejo e recitavam versos obscenos. Jovens atiravam doces parecidos com drágeas e nozes, símbolo de fecundidade. Quando a noiva chegava à casa do noivo, ele a erguia em seus braços e a levava para dentro. 

O noivo apresentava à noiva a água e o fogo, que ela tinha que tocar, para simbolizar sua autoridade de dona da casa. Ela dava uma moeda ao marido, uma aos deuses protetores da casa, e fazia uma terceira tilintar, - gestos que expressavam sua incorporação ao lar, à sua casa, a seu bairro. Em seguida, era acompanhada até o quarto do casal, onde encontrava o marido; depois as matronas (mulheres romanas casadas) tiravam seu cinto. Diante da porta do quarto, jovens entoavam um canto nupcial evocando o deus Himeneu (personagem da mitologia grega, filho de Apolo e Afrodite e deus do casamento – é representado como um jovem usando uma grinalda de flores e segurando uma tocha ardente). No dia seguinte à cerimônia, a jovem assumia sua função de mater familias.

Se prestou bastante atenção, deve ter percebido vários momentos (e adereços) da liturgia matrimonial atual no resgate da história, como o noivado, a origem de pagens e damas, o porque do marido carregar sua mulher antes de entrar no quarto, a origem do véu e grinalda, o princípio da direita como lugar de honra. Sabe agora o porque do noivo sempre entrar primeiro na igreja (a mesma simboliza sua casa no ato de desposar sua noiva); o significado da cor branca no vestido da noiva e porque é o homem que pede a mulher em casamento e não o contrário.

Os argumentos estão postos à mesa. Cabe à você saber usá-los com inteligência e bom senso para convencer seus clientes o porque de adotar determinado comportamento e postura na cerimônia de casamento.

O que expuz aqui não é lei. Cada um faz aquilo que achar melhor, mas quem sou eu para discutir e questionar mais de 3000 anos de tradição, ritual e história?

Em 11/07/2014 - 10:22:40
 
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